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Privação de sono pode aumentar o risco de erro clínico em médicos

Desde a residência, o sono virou o primeiro sacrifício da carreira na medicina. Mas o que a ciência mostra é que essa conta sempre chega, e o valor é alto.

Privação de sono pode aumentar o risco de erro clínico em médicos

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Profissionais de saúde com alta privação de sono têm até o dobro do risco de relatar um erro clínico. O dado vem de um estudo que acompanhou mais de 11 mil médicos e foi publicado pela revista científica JAMA, em 2020.

No grupo analisado, 16% dos médicos em treinamento e 7,5% dos assistentes relataram ter cometido um erro médico com dano ao paciente no ano anterior ao da realização da pesquisa. O estudo também mostrou que quanto maior o comprometimento relacionado ao sono, maior o risco de erros.

Para quem vive na linha de frente do cuidado, o sono costuma ser o primeiro item a ser sacrificado. A lógica parece inevitável, já que a prioridade é o paciente e o descanso fica para depois. Mas o corpo não costuma aceitar essa negociação por muito tempo.

Mariane Yui, especialista em medicina do sono e médica da Alice, lembra que essa relação começa cedo.

“A questão do sono na medicina começa ainda na faculdade. Na minha época de residência, não existia período de descanso no pós-plantão. Hoje isso está mais humanizado em alguns lugares, mas ainda acontece de o médico trabalhar a noite inteira e, no dia seguinte, seguir com consultório, cirurgias ou outros atendimentos. Na prática, muitos acabam realmente privados de sono”, explica Yui, que também é especialista em otorrinolaringologia.

Parte do problema, segundo ela, está na organização da própria carreira, com plantões noturnos, cirurgias longas e jornadas muito fragmentadas. Mas existe também um componente cultural que sustenta tudo isso.

“Ainda persiste a ideia de que o sono é algo secundário, e que é possível negligenciar. Enquanto as pessoas são jovens, muitas sentem que conseguem levar a vida assim. Mas, com o tempo, o corpo cobra.”

Muito além do cansaço

A falta de descanso não se limita à sensação de fadiga. Ela atravessa o raciocínio, a memória, o humor e, como o estudo acima mostra, a segurança de quem está sendo cuidado.

Uma revisão publicada no Baylor University Medical Center Proceedings ajuda a dimensionar o cenário. As jornadas médicas frequentemente variam entre 60 e 90 horas semanais, com consequências que incluem piora na memória, cognição mais lenta, menor aprendizado e capacidade de resolver problemas.

“Uma pessoa que não dorme bem por muito tempo tem a atenção comprometida. Fica muito mais difícil pensar quando se está cansado. Ela também tende a ficar mais irritada, mais sensível aos estressores do dia a dia, pode ter menos tolerância às queixas dos pacientes e sentir menos empatia”, resume a especialista em sono.

Há ainda um aspecto pouco discutido, que são os efeitos da privação de sono para além dos consultórios, clínicas e hospitais. Estudos mostram uma associação entre a fadiga e acidentes, inclusive no deslocamento após jornadas prolongadas.

Dormir bem não é bater meta de horas

Quando o assunto chega à prática, a pergunta mais comum é: quantas horas são suficientes? A resposta é menos direta do que parece.

“É importante separar a quantidade de horas e a qualidade do sono. São aspectos diferentes”, explica Yui.

A maior parte da população precisa entre sete e oito horas para acordar restaurada, mas existe uma variabilidade biológica real. Há dormidores curtos, que funcionam bem com até seis horas, e dormidores longos, que precisam de dez horas ou mais. E mesmo quem atinge a “meta” pode acordar esgotado se o sono for fragmentado.

“A pergunta mais importante é: quantas horas você precisa dormir para acordar restaurado e se sentir bem ao longo do dia?”

Sono regula processos essenciais do organismo

Quando o descanso entra no radar da saúde integral, ele deixa de ser apenas um intervalo entre o dia e a noite. A médica usa uma metáfora para explicar esse papel:

“O sono é como o maestro de uma orquestra. Os processos biológicos continuam acontecendo mesmo sem ele, mas ficam descompassados. Quando dormimos bem, tudo funciona de forma mais harmoniosa.”

Durante o sono, o organismo consolida memórias, regula hormônios e realiza uma espécie de limpeza cerebral. O sono também contribui para o controle da glicemia, o metabolismo de gorduras e a estabilidade da pressão arterial.

São processos que, para médicos, têm uma camada extra de significado, já que muitos deles estão presentes no dia a dia como desfechos que eles precisam cuidar em outras pessoas.

Como proteger o sono em uma rotina intensa

A rotina real da medicina nem sempre permite uma higiene adequada do sono. Ainda assim, algumas estratégias ajudam a reduzir o impacto.

“O sono é um dos pilares da medicina do estilo de vida e não depende apenas da noite. Ele é resultado de tudo o que fazemos ao longo do dia”, lembra a especialista.

  • Manter regularidade sempre que possível. Horários consistentes para dormir e acordar ajudam o organismo a preservar seu ritmo biológico, mesmo em semanas com plantões.
  • Reservar tempo para recuperação após plantões. Sempre que a agenda permitir, um período de descanso após uma noite de trabalho faz diferença real na recuperação.
  • Usar estimulantes com cautela. A cafeína pode ajudar momentaneamente, mas o consumo excessivo (especialmente à tarde) atrapalha o sono da noite seguinte.
  • Cuidar da alimentação e do movimento. A privação de sono aumenta a vontade por carboidratos e alimentos estimulantes. Uma alimentação equilibrada e atividade física regular ajudam a reduzir esse impacto.
  • Conhecer o próprio cronotipo. Saber se você é mais matutino ou vespertino — e quantas horas realmente precisa dormir — é um ponto frequentemente negligenciado. “Isso pode até influenciar escolhas dentro da carreira médica”, diz Mariane.

Priorizar o sono é parte do cuidado

Durante muito tempo, dormir pouco foi lido como sinal de dedicação. A ciência vem mostrando o contrário: quando o sono desaparece da rotina, o desempenho, a saúde e a segurança começam a se deteriorar junto.

Para médicos, cuidar do próprio sono não é apenas autocuidado. É também uma forma de preservar o raciocínio clínico, o equilíbrio emocional e a capacidade de continuar cuidando de outras pessoas.

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