Um em cada cinco funcionários no mundo sente solidão no trabalho com frequência, segundo o relatório State of the Global Workplace 2024 da Gallup. O dado importa porque desmonta uma suposição comum: o trabalho em si tende a reduzir a solidão — adultos empregados relatam menos solidão do que desempregados —, mas esse efeito só se sustenta quando existe engajamento real com o time, não apenas presença física ou remota.
A Alice vem observando esse fenômeno de perto através de duas frentes próprias. Uma é o AcelerAI, seu programa de fluência em inteligência artificial, que parte da premissa de que a curva de aprendizado de IA precisa ser coletiva para não isolar o time — como detalhado no episódio 16 do Open Arena. A outra é uma série de entrevistas com lideranças de RH brasileiras — nos cases do Magazine Luiza e do Grupo OLX — que já mostraram, com dados próprios, o efeito mensurável de rituais de conexão em sinistralidade e absenteísmo.
Esse racional conversa com uma pesquisa que ganhou tração global nos últimos dois anos: a de que existe uma terceira dimensão de saúde, ao lado da física e da mental, ligada à qualidade das relações de uma pessoa. Isso tem um nome técnico — saúde social — e uma cientista à frente do conceito, a autora americana Kasley Killam, que apresentou o tema durante o CONARH 2026 e já havia levado a discussão ao Brasil antes, na SXSW 2025, em entrevista à CHRO da Flash publicada no Blog da Alice.
O que é saúde social e por que virou prioridade global?
Killam argumenta que a maior parte das recomendações de saúde foca em dois pilares — físico e mental — e ignora uma terceira dimensão igualmente relevante: a qualidade e a quantidade das relações de uma pessoa, com amigos, família e colegas de trabalho.
O peso científico da ideia vem de décadas de pesquisa em saúde pública. Segundo a Gallup, que cita o trabalho da pesquisadora de Harvard Lisa Berkman, pessoas com poucas conexões sociais têm risco de morte duas vezes maior do que pessoas com muitos vínculos — independentemente de status socioeconômico ou hábitos de saúde. Em junho de 2025, a Organização Mundial da Saúde formalizou essa urgência, publicando o relatório From Loneliness to Social Connection, que trata a conexão social como prioridade de saúde pública equivalente à física e à mental.
No ambiente de trabalho, o impacto é direto: segundo a Gallup, em pesquisa com mais de 15 milhões de pessoas, quem tem um “melhor amigo no trabalho” é sete vezes mais propenso a estar engajado e a produzir um trabalho de maior qualidade. Do lado oposto, a Cigna calculou que cada funcionário desconectado custa cerca de US$ 4.200 por ano em produtividade perdida — um total estimado de US$ 406 bilhões anuais só nos Estados Unidos.
Que rituais ajudam a fortalecer a conexão em um time?
Uma pesquisa publicada pela Harvard Business Review em janeiro de 2025, conduzida com quase mil pessoas em 60 países, mostrou que equipes com mais rituais compartilhados registraram maior engajamento com o propósito do time, mais segurança psicológica e mais satisfação no trabalho.
Exemplos internacionais ilustram isso na prática. Em times da Microsoft, colaboradores organizam encontros batizados de “Own Your Failure”, nos quais cada pessoa compartilha um erro recente e o que aprendeu com ele — sempre começando pela pessoa mais sênior da sala, o que sinaliza segurança psicológica para o resto do time. Na Campbell Soup, o então CEO Doug Conant escreveu mais de 30 mil bilhetes de agradecimento à mão para os cerca de 20 mil funcionários da empresa ao longo de uma década no cargo, reconhecendo contribuições específicas de cada pessoa. E o fundador do Airbnb, Brian Chesky, relatou publicamente que, depois de anos trabalhando sem pausas para amigos e família, percebeu o efeito contrário ao esperado: “Fico menos produtivo se não me afasto, se não tenho essas conexões com amigos — não penso com tanta clareza se não tenho vínculos sociais profundos.”
No Brasil, dois cases documentados pela própria Alice mostram o mesmo princípio em escala nacional. No Magazine Luiza, a reunião de segunda-feira simultânea em todas as unidades e a integração com famílias dos colaboradores sustentam uma cultura que a empresa mede por indicadores como turnover e engajamento. No Grupo OLX, o programa Flow gerou 15% de redução em sinistralidade e mais de 20% de queda em absenteísmo depois de mapear onde a desconexão estava concentrada, em vez de tratá-la como problema genérico.
Quando o uso de IA fortalece ou enfraquece a conexão da equipe?
Um framework de Killam ajuda a situar a inteligência artificial dentro dessa conta. Ela distingue três níveis de uso: a IA que apoia a conexão humana — como uma ferramenta que ajuda a preparar uma conversa difícil ou faz anotações numa reunião para liberar atenção para as pessoas —; a IA que complementa a conexão, assumindo tarefas administrativas para abrir espaço de colaboração; e a IA que substitui a conexão, ocupando o lugar de colegas ou parceiros nas necessidades emocionais das pessoas — o nível que mais preocupa Killam.
Esse terceiro nível é também o risco que a CHRO da Alice, Sarita Vollnhofer, já alertou publicamente: quando a adoção de IA acontece de forma individual e sem desenho coletivo, ela tende a substituir trocas humanas em vez de liberar tempo para elas. É esse diagnóstico que orienta o desenho do AcelerAI — tratar a curva de aprendizado como experiência de grupo, não solitária.
Para levar com você
A ciência por trás da saúde social mostra que conexão no trabalho não é um extra — é uma variável que afeta engajamento, retenção e até risco de mortalidade. Os cases de Microsoft, Campbell Soup, Airbnb, Magazine Luiza e Grupo OLX mostram, de ângulos diferentes, a mesma conclusão: rituais de conexão, quando desenhados com intenção, produzem resultados mensuráveis — e a tecnologia, incluindo a IA, só ajuda quando desenhada para somar a isso, não para substituí-lo.
>> Adoção coletiva de IA reduz isolamento no trabalho: o que mostra o AcelerAI da Alice
Perguntas frequentes
O que é saúde social?
Saúde social é a dimensão da saúde relacionada à qualidade e à quantidade das conexões humanas de uma pessoa — com amigos, família e colegas de trabalho. Ao lado da saúde física e mental, o relatório da OMS de junho de 2025 sobre conexão social reconhece esse pilar como igualmente urgente para políticas públicas.
Quantas pessoas se sentem sozinhas no trabalho?
Segundo a Gallup, 1 em cada 5 funcionários no mundo sente solidão no trabalho com frequência. O trabalho em si tende a reduzir a solidão, mas esse efeito só se sustenta quando há engajamento real — pessoas desengajadas têm risco de solidão quase equivalente ao de quem está desempregado.
Quais rituais ajudam a fortalecer a conexão em um time?
Segundo a Harvard Business Review, equipes com mais rituais compartilhados registraram maior engajamento com o propósito do time, mais segurança psicológica e mais satisfação no trabalho. Exemplos práticos incluem encontros de compartilhamento de aprendizados, reconhecimento individualizado e construção coletiva de cultura — a intencionalidade da liderança é o fator comum.
Existe um jeito de saber se o uso de IA está ajudando ou atrapalhando a conexão do time?
Sim — a pesquisadora de saúde social Kasley Killam propõe observar três níveis de uso: se a IA libera tempo para interação humana, ela ajuda; se assume tarefas administrativas, exige acompanhamento; se passa a ocupar o lugar de conversas emocionais entre colegas, é sinal de alerta.